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segunda-feira, 17 de março de 2014

Sobre Ana, Karina, Simone e Virgínia

Simone sabia o que lhe aconteceria, ela era interessada, fanática, de uma inteligência e oratória estonteante, vívida, entusiasmada, sonhadora. Virginia era meio morta, entendia de tudo quanto se falava nas mesas dos bares, mas não tinha convicções, certezas, ambições, algo faltava àquela mulher inveterada na vida. Já Karina era o sonho dos rapazes, todos a desejavam, ela só queria que algum deles a compreendesse, Karina era a alma sensível de todas aquelas meninas tão racionais. Ana era a voz da humanidade, a que trazia à tona os problemas alheios, a que sabia que a vida vai além do seu próprio nariz, Ana não era mimada, ela era idealista, e almejava levar toda a sabedoria aos quatro cantos da terra. O que essas garotas todas tinham em comum? Eu sei, mas não quero compartilhar. Elas nasceram em tempos difíceis, mas tudo quanto pode ser concedido a elas o foi.
 Simone entendia sobre filosofia e vivia a questionar suas companheiras, evitava entrar em conflito consigo mesma, pois sabia que estaria entrando em um abismo sem fim, ela era toda questionamento, mas se valia enquanto resposta rasteira. Discutia política, bradava suas opiniões, sabia que estava certa sobre suas convicções, porém não tinha certeza. Simone sabia ouvir, mas sua voz precisava ser ouvida. Ela desenvolveu bastante suas habilidades aos vinte anos, quando percebeu que nem só de cigarro e vodka se vive a vida. Como já disse, ela era inteligentíssima! Vivia para seus questionamentos, ela podia se alimentar deles. Ela era uma mocinha da cidade que se destacava das outras por ser tão distinta e impertinente. Simone vivia uma vida que valia a pena. Simone lia Sartre, Schopenhauer, Hegel, Marx, Engels. Por teoria própria, Simone não acreditava que o inferno fosse, SOMENTE, os outros.
 Ana amava as pessoas. Ela era religiosa, sua religião era o amor, nunca acreditou em nenhuma outra coisa, também nunca conheceu nada além disso, muito menos vivenciou. Ana era sensorial, precisava sentir o bem ao redor, e só assim, acreditava no bem. Ela queria fazer o bem. Ela amava os animais, sem nunca ter sido ensinada a amá-los. Ana chorava muito a noite, apesar de ninguém nunca ter entendido o motivo, pois ela sempre foi tão querida, tão amada, tão bem cuidada, cheia dos mimos e com todas suas vontades feitas. Ana ouvia Bach, Chopin, Bethooven, enquanto suas colegas não sabiam o que isso queria dizer, não sabiam ao menos pronunciar tais nomes. Ana foi educada assim, e tentou explicá-las, mas foi, fortemente, ignorada. Ana tinha seu conforto nos livros, ela era menina, mas já sabia algumas coisas essenciais à vida: "o essencial é invisível aos olhos, só se ver bem com o coração". Ela não tinha a inteligência de Simone, mas tinha um conhecimento que Simone não possuía mais, o conhecimento das almas puras.
Karina era uma mulher de Godard, cheia de conflitos, cheia de amores. Karina não tinha tempo para os livros, sua vida era um romance com milhares de páginas e mais uns trezentos personagens. Ela ouvia rock'n roll no último volume, o aprazível era o inalcançável, mas o que Karina não podia alcançar? Ela era destemida e sonhadora, buscava um amor que não encontrava em nada e em ninguém. Tinha seus vícios, suas virtudes. Não era tão madura quanto Simone, nem tão imatura quanto Ana, Karina era a ponte entre essas duas. Karina era indefinível, seu sorriso amargo vivia estampado em seu rosto, e como a profundidade do seu olhar dilacerava! Karina aprendeu a ser mulher nos tapas, entendendo que agir inconsequentemente era agir sem sentir. E Karina ansiava sentir algo, mas só o desejo a penetrava, de resto... Era só passagem, era só... Nada! Karina era inteiramente dela, mesmo vivendo com tantos. 
Por último, apresento-lhes Virgínia. Virgínia era a sabedoria muda, que sabe que tem mais a ouvir que a falar, embora houvesse tanto a ser dito. Mas seu silêncio sempre soou mais alto que sua voz. Virgínia não era chegada aos romances, e grandes obras literárias, ela era aficionada pelos poemas, escritos tão simplesmente, mas cheios de vitaliciedade, vitaliciedade cujo seu coração não possuía mais. Nos seus últimos dias de vida, ela que já não tinha uma boa memória, lembrou-se de tudo quanto viveu, aprendeu, sentiu, desejou. E percebeu no seu coração, que, embora doa, a vida sempre, sempre, deve ser consumida ao máximo.
Todas essas mulheres, meninas, foram alvos da vida, cartas de um baralho, partes de um todo, mas não deixaram em branco sua passagem, por mais que sejam anônimas para tantos outros, como você. Elas encheram seus dias de ar, por mais que, às vezes, sufocassem-se. 

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