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domingo, 26 de fevereiro de 2012

Memórias eternas de um coração fatigado

Enquanto a chuva rala caia pelo céu escuro, o vento cortante e gélido batia no meu rosto, sabia que não poderia continuar contemplando o imenso verde das árvores, muito menos sentindo a lama suja nos meus pés, caso contrário adoeceria. Já não tinha mais idade para tais aventuras, minha saúde não era boa e em breve eu morreria, alguns diriam que eu estou nova demais para morrer, mas eu sinto que minha jornada acabou. Corro em direção a minha casa, uma das poucas coisas materiais a que me apeguei nesses longos anos de vida, ali estava meu coração, ali era meu lar. Antes de entrar, colhi uma hortênsia azul, depois que me aposentei cultivei gosto pelas flores, especialmente hortênsias. A casa estava vazia, o que não a tornava menos confortável, muito pelo contrário, apesar do frio, o aconchego quente que me era proporcionado ao adentrar esses cômodos era impossível de descrever. As roupas molhadas estavam causando-me perigo, àquela altura, tudo havia se tornado perigoso. Ponho as flores em um jarro ao lado da cama, começo a me despir de frente ao espelho, as rugas haviam tomado conta do meu rosto, minhas mãos outrora macias haviam se tornado ásperas, o corpo muito modificado pelo tempo e o cinza do cabelo enchia meus olhos de cor, ainda não vir a precisar de óculos, e acho que não virei, já não me resta muito tempo de vida. Na costela direita vejo as pequenas letras de uma das minhas tatuagens adquiridas na minha juventude: "Limitless undying love, which shines around me like a million suns" Era exatamente o que eu sentia agora, amor incondicional por tudo ao meu redor, emanando energia de volta para mim. Entrei no chuveiro, com o tempo aprendi a tomar banho quente, e era só como tomava desde então. Gostava de passar horas em baixo da água corrente, o vapor que subia fazia bem para minha alma. Quem eu sempre procurei satisfazer, minha alma. Meu corpo temporário nunca foi auge da minha dedicação. Pois sou um ser espiritual dentro de um corpo que em breve se irá, acredito. Lembrei da minha tatuagem da costela e de quando a fiz. Havia acabado de completar 18 anos, tinha ido viajar com um colega de curso para o exterior e no primeiro segundo que pus o pé no tal país quis realizar minha pequena tatuagem, que virara minha marca. Alguns criticavam a redundância de tais palavras, eu apenas sorria e repetia calma: Amor ilimitado e imortal brilhando ao meu redor como milhares de sóis. E aquele virou meu mantra. Enquanto houvesse sol, haveria amor. Continuo sendo a mesma mulher calma desde os meus 18. Acredito no amor desde de os 16 e até então não tenho vivido para outra coisa, a não ser para amar. Saio do banho e vou direto para as cobertas da minha cama, era assim que gostava de dormir, muito frio e muito cobertor, sentia-me protegida. Fechei os olhos, lembrei do meu colega dos 18. Eu já havia perdido 62 anos, não sabia quantos me restavam. Por onde ele andaria? Adormeci.

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